Arquivo para abril 2009
O Tesouro Americano
· O que é?
É o plano do governo americano para salvar os bancos que têm títulos podres, para acabar com o prejuízo dessas instituições. Acabando com o prejuízo, os bancos voltaram a emprestar para empresas e consumidores para reaquecer a economia. Será investido cerca de 1trilhão de dólares, sendo a maior parte do dinheiro público e cerca de 15% virá de investidores.

· Como funciona?
A entidade financeira possui ativos avaliados em US$100milhões. Ele sabe que para se livrar deles terá de abaixar o preço de venda para (por exemplo) US$70milhões, pois sabe da má qualidade dos títulos.
Os investidores fazem um leilão para a compra desses títulos. Quem oferecer mais dinheiro leva o montante. Aquele que oferecer os US$700milhões, será patrocinado pelo governo que entrará com US$60milhões, o tesouro entrará com US$5milhões e o investidor US$5milhões.
Se a carteira de títulos valorizar, o banco levará os US$60milhões com o adicional de juros, e o tesouro e os investidores dividiram o lucro. Ou seja, todos ganham, o governo não gasta nada, os investidores e o tesouro lucram, e o banco volta a ter liquidez.
Porém pode ocorrer o contrário; se a carteira desvalorizar de US$70 milhões para US$ 10 milhões, o governo recebe estes 10milhões e fica com a carteira, os investidores e o tesouro perdem o que investiram.
Se tiver sucesso esse projeto pode a solução para o problema dos títulos podres e assim salvar o governo, se não tiver sucesso, pode manchar o nome do de Obama, e assim não conseguir um novo empréstimo do governo e agravar ainda mais a crise.
· Relações com a Crise de 29
Podemos comparar esse plano com o início da Crise de 29 no qual o investidor adquiria um empréstimo no banco para poder comprar ações. Com esse empréstimo eles pagavam 90% das ações e depois apenas pagava 10% com seu próprio dinheiro. Assim ele comprava essas ações, esperava a valorização quitava a dívida com os dividendos adquiridos e embolsava o restante. Porém quando as ações caíram, os bancos não receberam a devolução do empréstimo aos credores e começaram a ter um enorme prejuízo. (leia a explicação completa)
É basicamente a mesma coisa, porém o banco que emprestava em 29, agora é o conjunto do tesouro, os investidores e o governo. Os credores seriam os investidores que seriam atraídos pela inexistência e a “limpeza” de títulos podres dos bancos. Se eles não investirem, tudo estará perdido.
Opinião de economistas famosos:

Fonte:http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0940/financas/1-trilhao-dolares-bastarao-432192.html
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Entrevista Exclusiva Com o Economista Ricardo Terranova Favalli
Ricardo T. Favalli, é economista do setor público.
1. De um modo geral, quais são as comparações que se pode fazer de ambas as crises?
Bom, Raphael, primeiro te agradeço pelo convite, para que possa transmitir a vocês um pouco de minhas idéias sobre as crises econômicas.
Existem algumas comparações possíveis que podemos fazer, visando encontrar características parecidas entre os dois processos de crise econômica, aquele iniciado em 1929 e o presente, que se agravou no decorrer do ano de 2008.
Irei analisar alguns pontos que considero interessantes.
Quero lembrar, inicialmente, que o processo de crise até o momento parece não afetar de forma tão significativa o Brasil, se comparado aos efeitos observados nos EUA e na Europa. O país está sendo afetado sem dúvida, mas ainda não na profundidade dos problemas observados nos países mais desenvolvidos e em outros países em desenvolvimento como o Brasil.
Por outro lado, os problemas econômicos estão ocorrendo no presente, sendo difícil fazer previsões sobre se a crise atingirá fortemente o Brasil, ou se por aqui os efeitos serão menos graves.
Quero dizer com isso que não temos consciência neste momento do tamanho da crise, ainda existem opiniões diferentes, sobre se o mundo econômico está iniciando uma recuperação, ou se ainda se aprofunda a crise. A segunda opção, do aprofundamento da crise ainda é a mais aceita pelos economistas mais renomados.
Voltando à sua questão, apresento a evolução dos processos de crise, quanto às características que se repetiram durantes as duas épocas que estamos analisando. Aqui se analisa a face financeira da crise:
a) Na crise de 29, e nesta que veio se agravar em 2008, foram registradas grandes perdas nos índices de bolsas de valores. A perda nos mercados bursáteis (= de bolsas), em outras palavras, a desvalorização das ações, foi marcante no decorrer das duas crises. As perdas nestes mercados se estendem a grande parte dos setores econômicos, principalmente aqueles compostos por grandes empresas e bancos.
b) As grandes corporações (empresas), juntamente com o setor bancário-financeiro, sofreram os efeitos imediatos da desvalorização acionária. O patrimônio de tais empresas e bancos (a maior parte deles é cotado em bolsa) é atualmente medido por seus valores em bolsa, e um movimento negativo em bolsa significa a diminuição de seus valores patrimoniais, ou seja, a perda do valor delas próprias perante o mercado.
c) Outro aspecto importante, é que os grandes bancos, ao perderem valor patrimonial (queda no valor de suas ações emitidas) como dito no parágrafo anterior, têm menor capacidade de emprestar, ou seja, a tendência é se fecharem a novos empréstimos, ou pelo menos os reduzirem. Isso afeta as empresas que necessitam dos recursos de empréstimos e financiamentos para suas atividades de produção e têm menos acesso a estes recursos.
d) Esta pressão sobre as empresas resulta em que várias delas sejam obrigadas a diminuir a produção/ atividade e a demitir, o que faz com que a economia como um todo tenha queda na produção e aumento no desemprego. O PIB dos países registra crescimento menor ou até retração, como ocorreu em muitos países (principalmente EUA e Europa) desde o 2º. semestre de 2008.
e) A maior taxa de desemprego dos trabalhadores, ainda reflete em menor massa de salários, ou seja, menos gente pode comprar, portanto novamente as empresas são afetadas, não conseguem vender sua produção como antes o faziam, existindo um novo estímulo para que reduzam sua produção. A redução de empréstimos e financiamentos disponibilizados pelos bancos também afeta as vendas (consumo), já que muitas delas são feitas à prazo, necessitando do financiamento bancário (que está menos disponível a todos como vimos acima).
As características de a) até e) que apresentei representam o processo de crise econômica, que se repete, esteve presente na crise de 29, e aparece de novo no presente. Existem outros aspectos que alimentaram as duas crises, que posso abordar posteriormente, aqui quis mostrar como a crise tende a se aprofundar, a partir da desvalorização do mercado acionário.
Quanto aos impactos das perdas acionárias, deve ficar bastante claro, que é esse o motor da crise, ou seja, transmite as perdas para os diferentes setores, já que os agentes econômicos (empresas, bancos, investidores) mais representativos na economia atual (e no período de 29 na economia americana) têm seus investimentos em ações, ou outros investimentos ligados diretamente ou ao menos influenciados pelos índices das bolsas de valores.
Para encerrar essa primeira questão quero deixar bem claro que a desvalorização acionária, embora seja transmissora dos efeitos de crise aos diversos setores (como eu disse no parágrafo anterior), não é o fato gerador dos problemas, tanto na crise de 29, quanto nessa que estamos atravessando.
Em ambos os períodos (29 e atual) existiram fatores que geraram o início dos períodos de crise, ou seja, problemas na economia real, gerados por excesso de produção, por excesso de empréstimos, falta de regulação pública das atividades bancárias e financeiras, entre outros fatores, que resultaram em perspectivas ruins para a economia como um todo, se refletindo nas quedas dos índices das ações nas bolsas do mundo.
Quanto aos fatos geradores da crise algumas diferenças ocorreram entre aquela crise lá atrás e a atual, assunto que falaremos nas questões a seguir.
2.O senhor acha que a crise atual, será mais impactante que a crise de 29? Por quê?
Como disse na primeira questão, é difícil fazer previsões sobre a gravidade da crise dado que estamos ainda no meio dela. A crise que ocorreu no século passado foi bastante grave, assolando principalmente as economias centrais (EUA e Europa). A crise atual parece assolar um número muito maior de países, ou seja, maior parcela do mundo está envolvida na crise, o que ocorrer pela globalização dos mercados financeiros, do comércio e da economia como um todo.
A crise anterior se agravou ao longo da década seguinte (anos 30) e muitos afirmam que isso ocorreu pela insuficiência das ações dos governos em conter a crise. Isto ocorreu principalmente pelo fato de ser a 1a. crise do modelo capitalista financeiro americano(baseado no mercado financeiro, de bolsas de valores), e os governantes não terem experiência, já que até então a economia se portava muito bem, caminhava sozinha.
E antes de 29, as crises não eram previstas, nem mesmo pelos estudiosos de economia, acreditava-se que o mercado se regularia por si mesmo e geraria benesses a todos. O pensamento que dominava era o do livre mercado, não haveria necessidade de ação dos governos.
A crise era mesmo muito grave, os EUA perderam a partir de 29 grande parte do que conquistaram durante toda a década de 20, os governos tiveram então de começar a agir. Mas como não tinham conhecimento sobre as crises, o que é dito é que as ações foram insuficientes em um primeiro momento, e estenderam e aprofundaram a retração econômica.
Apenas com as políticas de Franklin Roosevelt de atuação forte do governo é que veio a economia a iniciar a recuperação, a partir do meio da década de 30. Portanto, durante quase meia década os EUA e a Europa sofreram os fortes efeitos daquela crise econômica.
Os problemas atuais são tão complexos quanto aqueles observados na crise passada e, como descrevi na questão anterior o processo atual percorre o mesmo caminho, desvalorização acionária, restrição de empréstimos e financiamentos, desemprego, o “círculo vicioso” se repete.
A esperança que alguns mantém, grupo em que me incluo, é que a crise não tenha tanta intensidade, embora nos EUA isso não possa ser mais dito já que ali a situação já é bem grave no momento. O que se espera é que não se mantenha por muito tempo a depressão econômica, dado que os governos vêm se esforçando para reverter este processo.
É difícil falar que uma crise é mais grave que a outra, mas por ser otimista, aguardo que as políticas adotadas pelos governos nacionais e órgãos internacionais tenham efetividade no sentido de solucionar os problemas atuais. Ao contrário do início do século XX, nesse momento estes agentes públicos têm instrumentos para devolver aos países o crescimento econômico.
Portanto, o determinante para a recuperação da economia mundial é e será a adoção de políticas corretas pelas autoridades nacionais (governos) e dos organismos econômicos internacionais. Caso as medidas escolhidas tenham sucesso, existirão condições para melhora das condições econômicas a partir de 2010, o que discutiremos na questão 4.
3.Havia algum modo de prever ambas as crises?
Existem economistas que estavam alertando sobre os perigos de crise econômica desde 2006/2007, principalmente dentro da economia americana, onde se deu a origem da crise. Um deles é o economista Nouriel Roubini, ele é muito crítico, até mesmo pessimista, mas suas previsões vêm se confirmando, o que é de certa forma preocupante.
Na visão dele, a depressão econômica deve continuar por mais um tempo, ele considera que há chances pequenas da economia americana se recuperar a partir de 2010.
A crise era previsível para alguns, mas previsões econômicas são muito difíceis, já que a informação necessária para estudar-se os fenômenos econômicos é muito extensa, normalmente pouquíssimos conseguem reunir todos os dados disponíveis e fazer previsões acertadas.
Mas a situação americana no mercado imobiliário, de alto endividamento das famílias incompatível com seu nível de renda, era indício de que algo estava muito mal.
Quando o altíssimo endividamento médio foi detectado, instalaram-se dúvidas sobre a capacidade de pagamento das hipotecas (financiamentos imobiliários de suas casas) pelas famílias. Os bancos diminuíram então o acesso ao crédito (empréstimos e financiamentos), crédito que era essencial para a continuação daquele modelo americano.
Daí decorreu o início da crise de confiança, crescimento da inadimplência (não-pagamento) dos devedores (associado ao não refinanciamento das hipotecas pelos bancos), e contágio da crise ao mercado financeiro, sobretudo às bolsas de valores, iniciando o movimento descrito na questão 1.
Enfim, respondendo à pergunta, a partir da percepção do excesso de endividamento das famílias, em relação à sua renda, muitos observavam aquele fenômeno como embrião de uma grande crise, que acabou se confirmando, principalmente nos EUA.
A crise poderia portanto ser prevista na virada de 2006/07, mas muitos preferiram “fechar os olhos” e evitar ver o que já era bastante claro para alguns: uma grande crise econômica estava por vir.
O que interessa é que se construam mecanismos de regulação pelo governo, para que as crises sejam mais previsíveis, as grandes instituições sejam acompanhadas quanto à sua exposição a riscos, ou seja, que o setor público tenha instrumentos para prevenir o acontecimento das depressões econômicas como a que verificamos atualmente.
4. O atual presidente dos EUA, Barack Obama, está se preocupando mais em aumentar a renda da população. Roosevelt se preocupou mais em obras na infraestrutura para gerar emprego. Qual das duas opções foi mais coerente na sua opinião?
Raphael, na verdade o que acontece é que as políticas de ação direta do governo (conhecidas como políticas fiscais), devem ocorrer em uma economia capitalista em qualquer tempo, para o objetivo corrigir distorções das ações privadas (das indústrias, dos bancos, dos investidores, etc.).
O interesse privado (empresários em geral, trabalhadores) nem sempre gera um resultado satisfatório para a economia como um todo. Ou seja, em muitas áreas é necessária uma ação complementar do governo, ou mesmo principal, pois o investidor privado não supre as necessidades da economia como um todo, de um país por exemplo.
Áreas como transportes públicos, infra-estrutura (portos, aeroportos, energia) muitas vezes carecem de um impulso governamental para serem condizentes com as necessidades de uma nação, embora possam ter empresas privadas atuando, sem a menor dúvida. Uma adequada regulação e fiscalização por parte do governo é necessária para evitar, ou ao menor amortecer as decorrências das crises.
Mas a ação de governo tem de se expandir, e muito, em momentos de crise, quando os agentes privados se retraem, e dessa forma não investem, não consomem, e portanto não movimentam a economia.
Aqui existe novamente a referência ao “círculo vicioso”, onde a crise de confiança do setor privado gera: menor investimento, desemprego do trabalhador, queda na renda (menos pessoas empregadas), queda no consumo, este último gera nova queda no investimento, mais desemprego… Aqui se demonstra que a depressão econômica se alimenta dela mesma.
Dado esse quadro muito negativo no setor privado, o setor público precisa atuar fortemente, na forma e na quantidade que lhe for possível. Claro que têm de ser detectadas que políticas devem ser adotadas, que setores são prioritários, e essa é a tarefa complexa que os governos e outras instituições públicas nacionais e internacionais têm de cumprir plenamente para que as economias nacionais passem a se recuperar a partir de agora.
Respondendo à pergunta, ambas as políticas, adotadas por Roosevelt, mais focadas na infra-estrutura, e por Obama, mais centralizada no aumento da renda, têm sua importância, e mais, carecem de várias outras ocorrendo.
Têm de ser adotadas políticas dos mais diferentes tipos, como o saneamento do sistema financeiro e de setores estratégicos para a economia como a grande indústria e o setor agropecuário, a busca pela manutenção do emprego e da renda da população, e investimentos em diversas áreas, inclusive de infra-estrutura.
Esta última política (aumento dos investimentos públicos), sem dúvida, teria efeito mais forte do que as outras medidas citadas (pelo efeito multiplicador do investimento: pesquisar), mas os investimentos levam um tempo relativamente maior surtir efeitos positivos sobre a economia, por isso não deixam de necessitar de ações mais rápidas como o corte de impostos adotado nos EUA, e aqui no Brasil pelo Presidente Lula.
O que quero demonstrar aqui é que o trabalho das autoridades nacionais e internacionais é muito grande, e o tempo dirá quais políticas serão mais eficazes ou não, Como as crises tem muitas semelhanças, mas também diferenças, o governo tem de atuar de forma mais abrangente possível, para buscar compensar de forma eficaz a depressão dos investidores privados.
Num momento seguinte, em que a economia esteja em uma fase melhor, o Estado (governo) pode diminuir sua participação e “deixar que o barco ande” de forma mais autônoma, espontânea.
Por último, quero deixar a mensagem muito importante de que a ação regulatória dos governos nacionais e órgãos internacionais deve ser desenvolvida, para que crises futuras se repitam.
Dadas essas respostas, espero ter contribuído com suas pesquisas, um grande abraço. (RICARDO TERRANOVA FAVALLI)